Pular para o conteúdo

Impacto do conselho: correlação não é causalidade

Tela da Conselar: painel de impacto do conselho, ligando sugestões feitas em reunião a ações concluídas e resultados medidos.

Todo painel de impacto de conselho conta a mesma história: o board decidiu X, e três meses depois o número melhorou. A história é verdadeira e a conclusão que se tira dela quase nunca é. Entre “a decisão foi seguida do resultado” e “a decisão produziu o resultado” há uma distância que nenhum painel atravessa sozinho — e vale saber disso antes de levar o quadro para a reunião de renovação.

Três razões pelas quais o número teria melhorado de qualquer jeito

  • Reversão à média. O conselho é acionado quando algo está ruim — churn no pico, caixa apertado, ativação em queda. Métrica em valor extremo tende a voltar para a faixa habitual mesmo sem intervenção nenhuma. Um conselho que só é convocado no vale vai colecionar recuperações que teriam acontecido sem ele.
  • Causa comum. A mesma pressão que levou o board a decidir levou o time a agir por conta própria. A decisão do conselho e a melhoria do número podem ser dois efeitos do mesmo problema ficando óbvio, sem que um tenha causado o outro.
  • Seleção do que se conta. As decisões seguidas de melhora entram no quadro de impacto; as seguidas de nada continuam no plano de ação, num quadro diferente, que ninguém leva para a conversa de renovação. O quadro fica verdadeiro linha a linha e enviesado no conjunto.

O que o registro pode afirmar com honestidade

Nada disso torna o quadro inútil. Torna-o um quadro de outra coisa — e a outra coisa continua valendo o que custa.

  • Que o tema entrou na pauta em uma data, com o argumento que o colocou lá. Isso é fato registrado, não inferência.
  • Que uma decisão foi tomada, por quem, com que critério de pronto. Também é fato.
  • Que a execução aconteceu ou não, e em que prazo. Fato, e é o mais acionável dos três.
  • Que o número se moveu depois, na direção esperada ou na contrária. Fato — e é aqui que a interpretação começa, não termina.

Quatro fatos encadeados com data não provam causalidade, mas fazem uma coisa que a memória de ninguém faz: preservam o caso inteiro, incluindo as decisões que não deram em nada. É essa preservação — e não a seta de causa — que sustenta uma conversa adulta sobre o valor do conselho.

Como não transformar o painel em propaganda

Três hábitos baratos, e nenhum deles exige método científico.

  1. Registre a expectativa antes. No momento da decisão, escreva qual número deveria se mover, em que direção e em quanto tempo. Uma previsão feita antes vale mais que uma explicação construída depois, e é a única forma de o quadro poder estar errado.
  2. Mantenha as decisões sem efeito no mesmo quadro. A taxa de acerto de um conselho é informação, e um quadro em que só cabem os acertos não tem taxa nenhuma.
  3. Escreva a explicação alternativa ao lado. Se havia uma reversão à média plausível, uma sazonalidade conhecida ou uma iniciativa do time que já estava em curso, isso entra na mesma linha. Nomear a alternativa é o que separa leitura de narrativa.

O conselho que faz isso perde a apresentação bonita e ganha a única coisa que sobrevive a uma pergunta difícil: um histórico que ele mesmo poderia usar para se contestar. Quem lê um quadro assim e continua achando que o conselho vale, está achando por motivo verificável.